Educador, Autor e Pesquisador.
"O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente."
(Carlos Drummond de Andrade).
Nesta linha do tempo, convido você a visitar os fatos e as memórias da minha vida pessoal, profissional, acadêmica e literária. Entre a sala de aula, a pesquisa e a Palavra, eis o inventário de uma jornada tecida no compasso do mundo.
Às 16h55 do dia 07 de Novembro de 1965, em uma maternidade entre os bairros da Liberdade e Paraíso, em São Paulo, eu nasci. Foi assim que tudo começou.
Nasci palmeirense (cheguei a treinar judô pelo palestra alvi-verde), fui santista por um ano ou dois (ou melhor dizer, pelesista), mas com 7 anos de idade resolvi torcer pela Lusa. Foi uma longa jornada de torcida sofrida, com alguns "quases". Hoje em dia, cansei. Não acompanho mais o futebol profissional, com suas bets e ambevs.
Da pré-escola, ficaram guardadas algumas memórias de um tempo em que as brincadeiras foram um pouco mais difíceis, como se o vento soprasse com um pingo de força a mais. Mas logo depois, ao mudar para o Colégio Santa Luzia, em Pinheiros, um salto inesperado: pulei a primeira série inteira e me vi, num piscar de olhos, na segunda. Se por um lado essa aceleração me impulsionou para a frente, por outro me deixou sempre como o "caçula" da turma, um pouco mais ingênuo, descobrindo o mundo escolar um passo antes da hora. Foi uma lição precoce sobre pressa e inocência.
Cresci nas ruas de um Pinheiros que, aos poucos, ia perdendo o ar de bairro para dar lugar à correria de São Paulo. Mas tudo mudou quando completei 15 anos: meu pai, o "Seu João", e minha mãe, a "Dona Iracy", decidiram erguer uma casa no loteamento do Engenho, em Araçariguama. O Sítio, como carinhosamente o chamávamos, virou o nosso refúgio. Ali, longe do asfalto da metrópole, eu, meu irmão Jair e minha irmã Ana Maria descobrimos a liberdade do mato, o pé no chão e o valor das coisas simples. Aquele lugar virou o cenário das nossas melhores histórias, guardadas na memória junto com uma turma inesquecível de amigos e amigas.
A revolução digital entrou na nossa casa sem fazer alarde, embalada em um pequeno gabinete de plástico mole, cinza e compacto: o TK 82-C. Aquele pequeno computador, que transformava a televisão da sala em um monitor em preto e branco e exigia paciência cirúrgica para digitar em seu teclado de membrana, parecia um frágil brinquedo perto dos padrões atuais. No entanto, para mim e para o meu irmão Jair, foi um portal mágico. Entre linhas de código e comandos simples em BASIC, a máquina respondia ao nosso comando e, sem que percebêssemos, fomos definitivamente infectados pelo "vírus da computação". O que começou ali como uma fascinante curiosidade de juventude tornou-se o alicerce para uma vida inteira de projetos, lógica e desenvolvimento.
Ao ingressar no Ensino Médio — o antigo Colegial —, surgiu a necessidade de mudar de escola. A escolha foi afetiva e certeira: os Colégios Integrados Oswaldo Cruz Paes Leme, situados na Avenida Angélica, bem próximos à Avenida São João. Era o lugar onde meu querido avô Francisco Arci (o verdadeiro Professor Arci) lecionava Matemática. Optar por essa instituição também me permitiu abraçar uma antiga paixão: o curso técnico em Eletrônica. Para obter o diploma profissional, estendi a jornada por mais um ano, o que acabou me integrando ao cronograma regular de idade da minha turma. Embora o mercado tenha me levado por outros caminhos, essa sólida base técnica tornou-se o alicerce definitivo para os meus projetos de hardware, automação e desenvolvimento.
Na transição para a idade adulta, entre os 17 e 18 anos, alcancei o que parecia inalcançável: o ingresso na Universidade de São Paulo (USP), uma das principais potências acadêmicas da América Latina. Embora o plano inicial fosse a Engenharia Eletrônica, o destino me conduziu ao Bacharelado em Matemática. Sendo a USP, entendi que a oportunidade merecia ser vivida — e valeu cada momento. O ambiente universitário revelou-se extremamente enriquecedor e formador. Apesar de todas as complexidades, contradições e dificuldades inerentes ao ecossistema do ensino público, a vivência acadêmica me fez compreender na prática o lema gravado em seu brasão: Scientia Vinces — pela ciência vencerás.
Durante o curso de Matemática na USP, a revolução dos microcomputadores crescia como um tsunami imparável. Com os bits já correndo na veia, decidi mudar de rumo e prestei um novo vestibular para alcançar o que parecia ainda mais difícil: reingressar na USP, mas agora em um dos cursos mais concorridos da época, o Bacharelado em Ciência da Computação. Embora tenha sido uma grande conquista acadêmica, o próprio ingresso no curso me projetou rapidamente no mercado de trabalho. Diante das circunstâncias, optei por trancar a matrícula para trabalhar e ajudar financeiramente minha família. Olhando para trás, reconheço que não foi a melhor decisão para a minha jornada acadêmica; embora o suporte familiar tenha sido essencial naquele momento, a ausência do diploma se fez sentir anos mais tarde.
Meus primeiros passos no mercado de trabalho começaram com uma breve passagem como auxiliar de escritório em uma empresa de engenharia. Logo depois, ingressei em um estágio de um ano e meio no laboratório de computação da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, vivenciando a rotina pulsante do centro de São Paulo. Essa bagagem me deu impulsos para o próximo passo: uma iniciativa pioneira e empreendedora ao lado do meu irmão Jair e do nosso grande amigo Marcus Vinícius. Juntos, fundamos a Jaws Informática. Foi um período de dedicação extrema, noites em claro e muito trabalho que, embora não tenha trazido o retorno financeiro esperado, foi uma escola insubstituível de negócios e resiliência.
Eu estava passando alguns dias na casa de grandes amigos em Sorocaba, os Guenka — que eu ainda considero minha segunda família —, quando decidi subir para ajustar algumas telhas da edícula sob o céu chuvoso. De repente, o mundo desapareceu em um clarão. BUM. Um raio me atingiu diretamente. Foram centenas de milhares de kilovolts atravessando meu corpo, um estrondo ensurdecedor de mais de 120 decibéis e um calor instantâneo de milhares de graus Celsius. Naquela fração de segundo, experimentei a nítida e avassaladora sensação de que havia morrido. Mas o sopro da vida continuou ali. Na verdade, quem começou a morrer naquele exato momento foi o homem cético e pragmático que eu carregava dentro de mim; ele resistiu por apenas um ano mais, antes de finalmente dar lugar a um novo despertar.
Em 1994, o ingresso na JB Data, braço tecnológico da Editora Jurídica Brasileira, marcou um dos capítulos mais importantes e épicos da minha trajetória. Minha contratação coincidiu exatamente com a chegada da internet comercial ao Brasil, inserindo-me na vanguarda daquela revolução tecnológica. Atuando como Analista de Sistemas na região do Paraíso, no final da Avenida Paulista, vivenciei intensamente as Bienais do Livro e as históricas edições da Fenasoft. Mais do que gerenciar sistemas, essa imersão abriu as portas do mundo editorial para mim, proporcionando um contato profundo e técnico com todas as etapas de produção e desenvolvimento de livros digitais. Além do excelente momento profissional e financeiro, a JB Data me trouxe o maior presente da minha vida: foi ali que conheci minha esposa, Kátia, iniciando o namoro que transformaria meu futuro para sempre.
Deixei o aconchego da casa dos meus pais para dar um dos maiores passos da minha vida: fui morar com minha namorada, Kátia, no coração da Bela Vista, colado ao tradicional bairro do Bexiga. Ali, entre o aroma das cantinas italianas e o ritmo pulsante dos domingos de ensaio na quadra da Vai-Vai (atrás do nosso apartamento na Rua Rocha), começamos a desenhar nossa história como casal. Nossa rotina ganhou a energia de Lay, uma criança inteligente e de personalidade forte — herança direta da mãe. Foi também nesse cenário que aprendemos os encantos da convivência felina com três companheiras inesquecíveis: a temperamental Mimi, que de doce só tinha o nome e nos desafiava com o mesmo gênio forte das pessoas da casa; a dócil branquinha Milkye; e a elegante Nina, uma siamesa com pose de verdadeira top-model.
Em 2002, minha vida mudou de rumo e ganhou o seu significado mais profundo ao unir meu destino ao da minha amada Kátia. Sob as bênçãos do nosso casamento, tomamos uma decisão corajosa: deixar o asfalto e o ritmo frenético de São Paulo — abrindo mão da provisão dos empregos estáveis (ou nem tanto) — para escrever os nossos próximos capítulos no interior do estado. Nossa caminhada começou com a poesia de um ano e meio vivendo na calmaria da área rural de Araçariguama, no nosso já mencionado e tão querido "Sítio". Em seguida, as curvas da vida nos levaram para São Roque, onde construímos nosso lar e fincamos raízes por sete anos de muito companheirismo e descobertas. Ali, compreendemos o que significa construir uma família longe dos parentes, experimentando uma vida provinciana, com sua beleza e significado. Nesse acolhedor cenário, nossa casa ganhou a alegria e a companhia de novas gatinhas: Mel, Mabel, Baboo e Muppy. Foi também ali, em 2007, que encontramos a nossa comunidade de fé e casa de oração: a Igreja Metodista.
O ano de 2010 ficou marcado na memória como um divisor de águas, com a dor da despedida e profundos recomeços. Foi a época em que nos despedimos do "Seu João" (meu pai) e de "Dona Izabel" (mãe de criação de Kátia), que partiram para morar com Deus. Sob o impacto dessas ausências, mudamos nossa residência para a vizinha cidade de Mairinque. Nossa caminhada de fé foi se consolidando: fomos acolhidos como membros da Igreja Metodista e experimentei o meu batismo em idade adulta. Embora já batizado na tradição católica quando bebê, confirmar publicamente minha fé, decretando a morte do velho homem e a aliança com o Senhor, já com mais de 40 anos de idade, foi um ato de profunda renovação espiritual. Para selar essa fase de reconstrução, decidi que era hora de voltar aos estudos. Em um claro sinal de que estávamos no lugar certo, encontrei um curso de Licenciatura em Matemática disponível na própria cidade de Mairinque, dando o passo definitivo para o reencontro com a minha vocação: me tornar um professor.
Ainda cursando a Licenciatura, alcancei o sucesso no primeiro concurso público que prestei na vida, marcando o meu debut em sala de aula na rede pública estadual de Mairinque. Dividido entre as escolas José Pinto do Amaral e Altina Júlia de Oliveira, foi ali que verdadeiramente nasceram e se consolidaram minhas ideias como educador. A vivência prática me fez perceber, de imediato, o quanto a estrutura escolar tradicional carecia de novas abordagens e transformações. Revelou-se uma experiência maravilhosa: convivi com alunos e alunas inesquecíveis, a quem pude encorajar a persistir nos estudos, e que, em contrapartida, me ensinaram lições profundas e realistas sobre os desafios da educação contemporânea.
O ano de 2012 marcou a conclusão da minha Licenciatura Plena em Matemática. Durante esse término de curso, recebi o convite para integrar o corpo docente de uma instituição particular, o Colégio CB-COC, em São Roque. Inicialmente, fui designado para o Ensino Fundamental II — um segmento que não figurava nos meus planos originais. No entanto, o carinho, a espontaneidade e a energia dos alunos dessa faixa etária me conquistaram por completo, resultando em uma belíssima e sólida jornada de 11 anos lecionando na instituição. Ao longo dessa década marcante, atravessei profundas transformações pessoais, enfrentei os desafios impostos pela grande pandemia e amadureci minhas ideias e modelos mentais sobre a arte de educar.
Aos 50 anos de idade, redescobri que os sonhos não envelhecem. Em um bonito movimento de resgate, reencontrei o amor pela eletrônica que havia despertado em mim lá aos 15 anos, dando um novo e maduro significado àquela antiga paixão técnica. Hoje, essa reconexão se materializa na prática através da união consolidada dos meus conhecimentos de hardware e programação. Desenvolvo projetos integrados de software e automação, fundindo a robustez do PHP e do MySQL com as infinitas possibilidades de microcontroladores como o Arduino e o ESP32. Mais do que linhas de código e circuitos, essa fusão representa a certeza de que o tempo não apaga a nossa essência; ele apenas nos dá as ferramentas certas para realizá-la.
A obtenção do título de Mestre em Ensino de Ciências Exatas pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) foi um marco que transformou profundamente a minha maneira de lecionar e abriu de vez as portas para a pesquisa científica. Mais do que uma titulação, essa jornada na UFSCar permitiu aprofundar os estudos voltados à transposição didática da matemática, unindo a teoria rigorosa à prática de sala de aula. Além disso, a experiência me proporcionou o imenso prazer de conviver novamente no ambiente de uma universidade pública: um ecossistema pulsante, criativo, profundo e sólido, que oxigenou minhas ideias e consolidou meu compromisso com a excelência acadêmica.
No final de 2022, recebi o convite para integrar o corpo docente do SESI, na unidade de São Roque. Por apresentar uma abordagem pedagógica socioconstrutivista — mais alinhada àquilo que considero ideal para o aprendizado —, aceitei prontamente o desafio. Trabalhar em uma instituição da magnitude do SESI-SP tem sido uma experiência inédita e extremamente enriquecedora, repleta de constantes aprendizados. Diariamente, convivo com alunos e alunas cheios de energia, alegria e excelente índole. Meu maior desejo é poder guiá-los e inspirá-los para que, no futuro, eles também encontrem e exerçam a profissão para a qual nasceram — alcançando a mesma plenitude que, graças a Deus, eu experimento hoje.
Depois de nós acharmos os gatos, o jogo virou: eles é que nos acharam. Primeiro, veio um gatão forte e arredio, o Neko, que simplesmente decidiu morar em nosso quintal. Até tentamos introduzi-lo na família dentro de casa, mas não tem como, ele vive lá fora mesmo. Ele nos trouxe um pequenino, provavelmente irmão, o Nekinho. Apareceu com a pata dianteira esquerda pendurada por um fio. Não sabemos o que ele passou, mas levamos para nossa veterinária que infelizmente teve que amputar a patinha. O fato é que ele se adaptou incrivelmente com três patas, aceitou muito bem viver dentro de casa, é extremamente dócil e, supreendentemente ágil. Em seguida, na veterinária (a querida Cláudia, junto com Alexandre e Giovana) apareceu um gatinho peludo que foi resgatado de dentro de um rio em São Roque. Este gatinho agarrou na Kátia, e a escolheu para ser dele (o oposto do que vinha sendo feito). Resultado, o Mingau é hoje um gatão de 7,2 Kg. O que tem de bonito, tem de tranquilo. Por fim (ao menos achamos), apareceu uma gata prenha no quintal. E, de repente, em uma noite chuvosa, deu a luz a 7 (sete) gatinhos! Duas fêmeas e cinco machos. Doamos 5 filhotes, mas tivemos que ficar com dois. O Evaristo e o Dalmo. E a mãe deles, que demos o nome criativo de Mãe.
O ingresso no Bacharelado em Teologia representou um passo maduro e dedicado ao estudo sistemático das Escrituras e ao desenvolvimento teológico. Em mais um reencontro, foi na UNIASSELVI — a mesma instituição que anos atrás abrira as portas para o meu retorno ao caminho acadêmico — que encontrei as ferramentas para este novo ciclo. Este mergulho acadêmico tem como propósito central aprofundar minha compreensão das Escrituras, fornecendo subsídios sólidos para a pesquisa e para a autoria de reflexões sobre o Caminho.
Em agosto de 2025, decidi colocar ordem na casa e a Arci Estudos & Projetos nasceu oficialmente. O motivo inicial? Aquele clássico empurrãozinho da burocracia: andar na linha com a legislação, emitir notas fiscais e fechar contratos sem dores de cabeça. Mas, no fundo, abrir essa empresa foi o jeito formal que encontrei para envelopar todas as minhas paixões sob o mesmo teto. Tornou-se o lar oficial onde o programador PHP, o técnico em eletrônica que mexe com Arduino e prototipagem, o professor de Matemática e o escritor de Teologia se encontram para tomar um café e trabalhar juntos. Um CNPJ com alma de artesão.
Mais uma vez, Deus permitiu que um sonho antigo fosse resgatado. Desde os meus 15 ou 16 anos, eu alimentava o desejo de ser escritor, embora o tempo fizesse parecer que esse plano havia ficado para trás. No entanto, ao ministrar as aulas na Escola Dominical da Igreja Metodista em Mairinque, percebi que o conteúdo desenvolvido para o curso bíblico transbordava o espaço da sala de aula: ele tinha a força para se tornar um livro. E foi além, transformando-se em uma obra completa. Em 5 volumes, a coleção Mergulhos na Palavra está sendo editada e distribuída. Assim, de forma natural e guiada pela fé, hoje posso finalmente olhar para trás e dizer que me tornei aquilo que nasci para ser.
Atualmente, sigo estruturando a Arci Estudos & Projetos, lecionando Matemática para o Ensino Fundamental II e Ensino Médio no SESI, e avançando na produção de novos textos. Aos 60 anos de idade, olho para a frente e vejo um horizonte repleto de possibilidades; diante de mim, pulsam o reencontro de antigos sonhos e o brotar de novos.
João Arci:
Desenvolvedor, matemático, educador, teólogo, pesquisador e escritor. Alguém que desbravou equações, códigos e escrituras, mas que ainda não aprendeu a dar nós em gravatas.